Histórias sobre monstros marinhos acompanham a humanidade há milhares de anos. Kraken, serpentes gigantes, criaturas capazes de afundar navios e animais enormes escondidos nas profundezas aparecem em relatos de marinheiros, livros, filmes e mitologias de diferentes povos.
Durante muito tempo era praticamente impossível confirmar o que existia nas regiões mais profundas do oceano. Um marinheiro podia observar uma enorme sombra passando debaixo do barco e não teria câmeras subaquáticas ou equipamentos científicos para descobrir exatamente o que havia visto.
Esse cenário ajudou a criar algumas das maiores lendas marítimas da história.
Só que existe uma parte particularmente interessante nessa história: alguns dos “monstros” realmente existem.

Não estamos falando de um Kraken do tamanho de uma ilha capaz de destruir embarcações. A ciência já identificou, porém, lulas gigantes, peixes enormes e criaturas das profundezas com aparências tão estranhas que poderiam facilmente fazer parte de uma história de terror.
Então, afinal, monstros marinhos são reais?
A resposta depende do significado de “monstro”. Não existem evidências científicas confiáveis da existência das gigantescas criaturas sobrenaturais descritas pelas lendas. Por outro lado, diversos animais reais provavelmente contribuíram para o nascimento dessas histórias.
Alguns são ainda mais impressionantes do que parecem na ficção.
Monstros marinhos existem de verdade?
Até hoje não existe comprovação científica de criaturas como Kraken, Leviatã ou enormes serpentes marítimas capazes de destruir navios.
Isso não significa que todos os antigos relatos tenham sido simplesmente inventados.
Muitos provavelmente surgiram a partir de encontros reais com animais que as pessoas da época não conseguiam identificar.
Imagine ser um marinheiro há 500 anos e encontrar parte de uma lula gigante boiando no oceano. Sem fotografias, internet, livros modernos de zoologia ou conhecimento sobre a fauna das grandes profundidades, seria extremamente difícil descobrir que animal era aquele.
Um tentáculo enorme poderia facilmente alimentar histórias sobre criaturas gigantescas escondidas no mar.
O Museu de História Natural de Londres destaca justamente que mitos sobre monstros marítimos aparecem em culturas navegadoras de diferentes regiões do mundo. Animais incomuns e raramente observados, especialmente grandes lulas e polvos, são considerados possíveis inspirações para várias dessas histórias.
O mais curioso é que alguns animais considerados praticamente lendários durante séculos acabaram sendo confirmados pela ciência.
A lula-gigante é o melhor exemplo.
Lula-gigante: o “monstro marinho” que realmente existe
A lula-gigante (Architeuthis dux) parece uma criatura criada especificamente para um filme sobre monstros marinhos.
Ela possui oito braços, dois enormes tentáculos utilizados na alimentação e olhos gigantescos. Vive em águas profundas e raramente é observada viva por seres humanos.
O Smithsonian informa que o maior exemplar registrado cientificamente chegou a aproximadamente 13 metros de comprimento total. O fato de viver nas profundezas ajuda a explicar por que encontros com o animal são tão incomuns.
Durante muito tempo, boa parte das informações disponíveis sobre essas lulas vinha de carcaças encontradas nas praias, animais capturados acidentalmente e restos descobertos no estômago de cachalotes.
Isso também ajuda a entender a origem de diversas histórias antigas.
Se encontrar uma lula com vários metros de comprimento atualmente já seria impressionante, imagine observar seus restos há centenas de anos sem possuir qualquer conhecimento sobre a espécie.
O Natural History Museum informa que a espécie foi classificada pela ciência ocidental em 1857. Mesmo depois disso, levou muito tempo para que os pesquisadores conseguissem observá-la adequadamente em seu ambiente natural.
A primeira fotografia confirmada de uma lula-gigante viva em seu habitat natural ocorreu apenas em 2004. Imagens e vídeos posteriores permitiram conhecer melhor um animal que, apesar de enorme, continua bastante misterioso.
E existe outra criatura semelhante capaz de ser ainda mais pesada.
Lula-colossal é ainda mais impressionante
A lula-colossal (Mesonychoteuthis hamiltoni) é outra enorme espécie que vive nas profundezas.
Apesar de a lula-gigante poder atingir um comprimento total enorme devido aos seus tentáculos, a lula-colossal possui um corpo mais robusto e pode atingir centenas de quilos.
Ela vive principalmente nas águas próximas da Antártida e permanece extremamente difícil de estudar.
Um detalhe mostra como ainda sabemos pouco sobre essas criaturas: a primeira filmagem confirmada de uma lula-colossal viva em seu habitat natural aconteceu somente em 2025, segundo o Natural History Museum.
Ou seja, estamos falando de um animal gigantesco cuja primeira observação filmada no próprio ambiente ocorreu há pouquíssimo tempo.
Isso não prova que criaturas mitológicas estejam escondidas no fundo do mar. Mostra, entretanto, que os oceanos ainda conseguem guardar grandes surpresas.
Peixe-remo: a possível origem das serpentes marinhas
Imagine estar navegando e encontrar um animal comprido, prateado e com uma espécie de crista vermelha atravessando a água.
Sem saber exatamente o que está observando, provavelmente seria fácil acreditar que encontrou uma serpente marinha.
O peixe-remo (Regalecus glesne) é um dos candidatos mais interessantes para explicar antigos relatos sobre enormes serpentes do oceano.
Seu corpo é extremamente alongado e possui uma aparência bastante incomum.
Segundo a NOAA Fisheries, esses animais podem ultrapassar 20 pés de comprimento, mais de seis metros, enquanto outras referências científicas registram indivíduos ainda maiores. Eles vivem em águas profundas e raramente aparecem próximos da superfície em condições normais.
O Natural History Museum coloca o peixe-remo entre os principais animais capazes de explicar antigas histórias de serpentes marítimas. A espécie pode alcançar aproximadamente oito metros e possui corpo metálico prateado acompanhado por uma impressionante estrutura avermelhada na região superior.
Quando observamos fotografias atuais sabemos que se trata de um peixe.
Para antigos navegadores, porém, encontrar um animal desses no oceano poderia ser assustador.
Essa mistura de observação real com interpretação limitada provavelmente ajudou várias lendas a crescer ao longo das gerações.
Outras criaturas reais que parecem monstros marinhos
Lulas gigantes e peixes-remo estão longe de ser os únicos animais estranhos encontrados nos oceanos.
As regiões profundas abrigam criaturas adaptadas a condições completamente diferentes daquelas encontradas na superfície.
Pouca luz, temperaturas baixas, enorme pressão e escassez de alimento fizeram algumas espécies desenvolverem características impressionantes.
Entre os animais reais frequentemente associados à aparência de “monstros marinhos” estão:
- lula-gigante;
- lula-colossal;
- peixe-remo;
- isópode-gigante;
- tubarão-duende;
- peixe-pescador;
- enguia-pelicano;
- tubarão-cobra;
- polvo-dumbo;
- algumas espécies de águas-vivas gigantes.
Nem todos são enormes. O aspecto “monstruoso” muitas vezes vem da aparência incomum.
Isópode-gigante
O isópode-gigante parece uma versão gigantesca daqueles pequenos tatuzinhos encontrados em locais úmidos.
A comparação não acontece por acaso.
Os isópodes pertencem a um grupo de crustáceos que apresenta enorme diversidade. Segundo a NOAA Ocean Exploration, existem cerca de 10 mil espécies conhecidas e aproximadamente metade delas vive no oceano. Algumas espécies do gênero Bathynomus apresentam o chamado gigantismo de águas profundas.
O Bathynomus giganteus, por exemplo, pode atingir aproximadamente 45 centímetros de comprimento.
Ele não é um monstro capaz de atacar navios. Sua aparência, porém, parece saída diretamente de um filme de ficção científica.
Tubarão-duende
O tubarão-duende (Mitsukurina owstoni) possui uma das aparências mais incomuns entre os tubarões.
Seu focinho é alongado e suas mandíbulas conseguem se projetar rapidamente para capturar presas.
Como vive em regiões profundas e dificilmente é observado pela maioria das pessoas, vídeos do animal frequentemente chamam atenção nas redes sociais.
Apesar da aparência assustadora, não estamos diante de uma criatura que percorre praias procurando seres humanos.
Esse é um padrão encontrado em vários animais chamados popularmente de “monstros das profundezas”: eles parecem assustadores para nós porque evoluíram em ambientes completamente diferentes daquele em que seres humanos vivem.
Kraken existe?
O Kraken provavelmente é o monstro marinho mais famoso da história.
A criatura está associada principalmente ao folclore escandinavo e normalmente é representada como um enorme animal semelhante a uma lula ou polvo.
Nas versões mais exageradas da lenda, o Kraken seria tão grande que conseguiria envolver embarcações inteiras com seus tentáculos e puxá-las para o fundo do oceano.
Não existem evidências científicas de um cefalópode desse tamanho.
A possível origem da lenda, entretanto, é fascinante.
O Natural History Museum aponta que grandes espécies de lulas e polvos provavelmente ajudaram a alimentar histórias sobre criaturas com tentáculos em diferentes culturas. Restos parcialmente decompostos desses animais encontrados em praias também poderiam adquirir formatos difíceis de reconhecer.
A lula-gigante real chega a dimensões impressionantes.
O Smithsonian registra exemplares chegando a cerca de 13 metros de comprimento total. Ainda assim, não existe evidência conhecida de uma lula-gigante saudável atacando e destruindo grandes navios como acontece nas representações populares do Kraken.
Portanto:
Kraken mitológico: não existe comprovação.
Lulas gigantes que podem ter inspirado a história: existem.
Essa diferença é importante.
A descoberta da lula-gigante não significa que a lenda do Kraken tenha sido comprovada. Ela mostra que pessoas antigas podem ter encontrado evidências de animais reais e transformado essas experiências em histórias cada vez maiores.
Quais são os monstros marinhos mais famosos das lendas?
O Kraken não está sozinho.
Praticamente todas as culturas que desenvolveram uma relação forte com rios, mares e oceanos criaram histórias envolvendo criaturas aquáticas.
Algumas dessas lendas atravessaram séculos.
Leviatã
O Leviatã aparece em textos bíblicos e se tornou uma das criaturas marítimas mais conhecidas da cultura ocidental.
Suas descrições e interpretações variam bastante conforme o texto e a tradição analisada.
Com o passar dos séculos, a palavra “leviatã” também passou a ser utilizada de maneira figurada para representar criaturas ou estruturas gigantescas.
Não existe evidência zoológica de um animal correspondente literalmente às descrições sobrenaturais associadas ao Leviatã.
Mesmo assim, a criatura influenciou fortemente livros, pinturas, jogos, filmes e outras representações modernas de monstros marítimos.
Serpentes marinhas gigantes
Relatos de serpentes gigantes no oceano aparecem em diversas partes do mundo.
Alguns descrevem animais extremamente compridos aparecendo ao lado de embarcações. Outros falam sobre corpos ondulando sobre a superfície.
Uma das possíveis explicações envolve justamente o peixe-remo.
Seu enorme corpo alongado combina bastante com aquilo que alguém poderia imaginar ao ouvir a expressão “serpente marinha”.
Outros animais também podem contribuir para confusões.
Grupos de animais nadando em sequência, partes de baleias, grandes enguias e até objetos flutuantes observados a distância podem adquirir formatos completamente diferentes dependendo das condições do mar.
Isso não permite explicar cada relato histórico individualmente. Mostra apenas que existem fenômenos naturais capazes de produzir observações semelhantes.
Scylla
Na mitologia grega, Scylla era uma criatura marinha associada a uma passagem extremamente perigosa.
Ela aparece com destaque na Odisseia, atribuída a Homero, ao lado de Caríbdis.
Ao longo da história, Scylla recebeu diferentes representações artísticas e descrições monstruosas.
Naturalmente não existem evidências científicas da criatura mitológica. O interesse da história está justamente em mostrar como civilizações antigas transformavam os perigos reais da navegação em personagens e monstros.
Tempestades, correntes marítimas, rochedos e animais desconhecidos eram ameaças muito mais difíceis de compreender sem o conhecimento científico disponível atualmente.
Sereias
Sereias talvez não pareçam monstros nas representações modernas, mas as histórias antigas nem sempre mostravam essas criaturas como personagens amigáveis.
Diversas tradições apresentam seres aquáticos capazes de enganar ou colocar marinheiros em perigo.
Uma das teorias mais conhecidas sugere que animais como peixes-boi e dugongos poderiam ter contribuído para alguns relatos.
Isso não significa que todos os relatos sobre sereias tenham essa origem. A semelhança percebida a distância, combinada com longas viagens marítimas e histórias previamente conhecidas pelos marinheiros, poderia favorecer interpretações equivocadas.
O Natural History Museum destaca justamente a presença de seres semelhantes a sereias em diferentes tradições marítimas ao discutir como animais verdadeiros podem ter influenciado criaturas mitológicas.
Já existiram monstros marinhos gigantes no passado?
Aqui a resposta fica ainda mais interessante.
Se utilizarmos “monstro marinho” apenas como maneira popular de descrever um enorme predador aquático, então sim, os oceanos pré-históricos tiveram animais impressionantes.
Isso não é lenda.
Fósseis demonstram a existência de enormes répteis marinhos durante a Era Mesozoica.
Entre eles estavam:
Mosassauros: grandes répteis marinhos predadores que viveram durante o período Cretáceo.
Pliossauros: répteis marinhos de corpo robusto, nadadeiras poderosas e enormes mandíbulas.
Ictiossauros: grupo de répteis marinhos com corpos adaptados à natação e aparência que, em algumas espécies, lembra superficialmente os golfinhos atuais.
Esses animais não eram dinossauros marinhos propriamente ditos. Eram diferentes grupos de répteis adaptados à vida nos oceanos.
O Natural History Museum possui inclusive uma exposição dedicada aos gigantes dos oceanos jurássicos e destaca pliossauros, ictiossauros e mosassauros entre os grandes animais que dominaram antigos ambientes marinhos.
Portanto, criaturas gigantescas realmente já nadaram pelos oceanos.
A diferença é que estamos falando de animais conhecidos através do registro fóssil e não de espécies mitológicas sobrevivendo secretamente até hoje.
Quanto do oceano ainda é desconhecido?
Essa pergunta é importante porque frequentemente aparece junto de afirmações sobre monstros marinhos.
Os oceanos são enormes e explorar suas regiões profundas é extremamente difícil.
Escuridão, pressão, distância e condições extremas tornam uma expedição às grandes profundidades muito diferente de simplesmente navegar pela superfície.
É justamente por isso que animais relativamente grandes ainda podem ser raramente observados.
A história das lulas gigantes demonstra isso muito bem.
A ciência conhecia exemplares e evidências da espécie havia bastante tempo. Mesmo assim, conseguir imagens de animais vivos em seu habitat natural demorou décadas.
Com a lula-colossal aconteceu algo ainda mais impressionante: somente em 2025 foi obtida a primeira filmagem confirmada de um exemplar vivo em seu habitat.
Novas espécies marinhas continuam sendo descritas conforme pesquisas avançam.
Isso significa que podemos descobrir animais surpreendentes no futuro?
Certamente.
Significa que um Kraken de centenas de metros está escondido no oceano?
Não.
A ausência de conhecimento completo sobre as profundezas não deve ser confundida com evidência da existência de qualquer criatura imaginável.
Ciência trabalha justamente com evidências.
Até que restos, DNA, imagens confiáveis, espécimes ou outros dados verificáveis apareçam, criaturas mitológicas continuam pertencendo ao campo das lendas.
Por que acreditamos tanto em monstros do fundo do mar?
Existe algo especialmente assustador no oceano: não conseguimos enxergar aquilo que está debaixo de nós.
Em terra firme, normalmente podemos observar boa parte do ambiente ao nosso redor. No mar aberto, basta olhar para baixo para encontrar uma enorme massa de água que rapidamente se transforma em escuridão.
Não sabemos imediatamente o que está passando alguns metros abaixo.
Para marinheiros antigos, esse mistério era ainda maior.
Sem equipamentos modernos, mapas precisos, conhecimento zoológico ou comunicação rápida, qualquer encontro incomum poderia se transformar em uma história extraordinária.
Um enorme tentáculo encontrado na praia poderia virar um monstro.
Um peixe-remo observado rapidamente poderia virar uma serpente.
O canto de animais, movimentos de baleias e enormes sombras debaixo de uma embarcação poderiam alimentar relatos repetidos durante gerações.
Cada pessoa acrescentava detalhes.
Assim nasciam algumas das maiores lendas marítimas.
O mais fascinante é que a ciência não tornou essas histórias menos interessantes. Em alguns casos aconteceu justamente o contrário.
Hoje sabemos que existe uma lula capaz de atingir aproximadamente 13 metros. Sabemos que enormes peixes alongados vivem nas profundezas. Conhecemos crustáceos gigantes, tubarões de aparência pré-histórica e animais capazes de produzir sua própria luz.
Também sabemos que a lula-gigante, considerada durante muito tempo quase uma criatura lendária, é absolutamente real.
Talvez nunca encontremos o Kraken descrito pelos antigos marinheiros.
Ainda assim, basta observar algumas das criaturas que realmente vivem nas regiões mais profundas para perceber que o oceano não precisa de monstros inventados para ser um dos lugares mais misteriosos do planeta.

